Será possível viver de memórias inventadas,
de sonhos apenas nos alimentarmos sem enlouquecer?
Se te contar um segredo, prometes tatuá-lo a tinta invisível
- no que deveria ser também o meu corpo - ?
Chamaste-me miúda e com isso roubaste-me a idade: sem ela não sei quem sou.
Já começa a doer.
Nos becos e vielas desta cidade que não é a tua vou deixando cair pedrinhas brancas, de lágrimas negras que deixo também cair enquanto grito o teu nome para dentro de um recanto no meu coração. Este verte, pois para te deixar entrar nada mais cabe.
Mas não encontras o caminho até mim, vivemos em tempos diferentes e a única coisa que nos une é o desencontro, não há para nós lugar comum.
E eu, que tinha tanto para te dar, só te vejo através do espelho quebrado do meus olhos.
Não te alcanço, pois até em sonhos me foges por entre os nós dos dedos e fios de cabelo.
Quando te sorrio não vês que te quero, que te quero roubar a qualquer estação e a qualquer comboio que te leve para longe? Numa outra vida. Ris-te.
Ainda desconheço esse sal que é o teu sabor, mas é ele que dança na minha língua.
Nunca me tocaste, mas são as tuas mãos que me seguram quando durmo.
- E não sabes que o teu riso rasga a tela da minha alma e tudo o que nela pinto -
Se nos beijássemos, teríamos também uma multidão a aplaudir?
O Sol escalda-me a pele e o vento arrefece-ma, sentindo-me viva enquanto morro em pedacinhos incontáveis. Porque são segredo. Não se contarão.
Condeno-me enquanto aplaudo o cumprimento de um contrato, e tropeçando sigo um tortuoso caminho que percorro vendada. Mais um dia, até findar o meu prazo.
Vou tocando assim sozinha a valsa parada sobre o meu ventre.
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